Enquanto espera o ônibus em uma avenida no centro de Brasília, Andrea*, de 32 anos, segura firme a mão do filho, de 6, que está com olhos vermelhos de chorar. Ela, mãe solo, relata que não bate, mas admite que precisa se conter diante das birras para não perder a paciência.
Andrea relembra que, na infância, recebeu tapas no lar, principalmente do pai. Ela afirma categoricamente que não fará o mesmo com o filho. A fala de Andrea ilustra a percepção comum entre algumas famílias de que a palmada pode ter função disciplinar, algo que contrasta com a visão de violência.
Contexto e recorte do estudo
O estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) tem como objetivo entender o que leva pais, mães e cuidadores, especialmente na primeira infância (até 6 anos de idade), a recorrer a palmadas. Segundo a pesquisadora Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, muitas famílias não consideram a palmada como violência e a distinguem do espancamento, que é visto como algo errado.
Metodologia e dados do levantamento
A pesquisa ouviu 214 pessoas em regiões de vulnerabilidade e violência. Foram 123 entrevistados no Rio de Janeiro (Grande Pavuna e Grande Jacarepaguá), 37 no Recife (Ibura) e 54 em Manaus (Colônia Antônio Aleixo e Parque das Tribos). O objetivo é mapear fatores culturais, sociais e emocionais que mantêm a prática em determinadas comunidades.
Legislação e percepção pública
A pesquisadora aponta que a Lei Menino Bernardo, conhecida como Lei da Palmada, existe há 12 anos e faz parte do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), vigente desde 1990. No entanto, o estudo aponta que a lei é pouco conhecida pelas famílias e é interpretada a partir de normas sociais que ainda legitimam a violência como educação.
Teixeira enfatiza, ainda, a necessidade de comunicar de forma mais eficiente com os pais e de trabalhar preventivamente com as famílias, oferecendo alternativas para capacitar profissionais que lidam com crianças.
Cenário de violência e silenciamento
Segundo a pesquisadora, a violência contra crianças acontece em todas as esferas e classes sociais, muitas vezes naturalizada. Ela afirma que as crianças não são vistas como pessoas, mas como objeto ou propriedade dos pais. Em algumas comunidades, há a percepção de usar a violência para ‘colocar a criança na linha’.
Conselhos profissionais e necessidade de capacitação
A Unicef identifica falta de capacitação dos profissionais da rede de proteção sobre como orientar as famílias a educar sem violência e dificuldade para que serviços públicos cheguem às famílias. A instituição defende que reduzir a violência passa pela mudança de normas sociais enraizadas e pela garantia de serviços públicos que apoiem as famílias na prevenção.
Dados de violência doméstica e impactos
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, no ano anterior, foram registrados no Brasil mais de 60 mil casos de maus-tratos ou lesão corporal em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes, o que representa um aumento de 106% em relação a 2024.
Recomendações e próximos passos
Entre as recomendações, o Unicef solicita aos governantes o reforço da prevenção da violência, com apoio a profissionais da rede de proteção para ampliar ações preventivas, além de campanhas que ensinem a estabelecer limites sem violência. As campanhas devem dialogar com as realidades dos territórios mais vulneráveis.
Perspectivas de especialistas
A psicóloga infantil Mara Gomes destaca que a primeira infância envolve desenvolvimento cognitivo, emocional, social e neuropsicológico. Ela ressalta que o cérebro ainda amadurece, com menor capacidade de inibição de impulsos e de autorregulação emocional, o que tende a provocar respostas intensas em situações de birra. A profissional sugere que a resposta dos pais deve evitar a violência, promovendo acolhimento, limites e diálogo desde cedo.
A pedagoga Marília Paiva, ligada a neurociência aplicada à educação, acrescenta que é essencial enxergar a birra como comunicação da criança. Ela propõe um método de quatro passos para enfrentar conflitos: regular as próprias emoções, acolher o sentimento da criança, impor limites e, quando houver abertura, ensinar. Para Paiva, a palmada não educa e gera medo, além de não favorecer o desenvolvimento da criança.