Brasileiros que seguem religiões de matriz africana e afro-brasileira afirmam não se sentir representados nas campanhas políticas de 2026.
Dados do censo demográfico do IBGE indicam crescimento dessa fé, com 1,8 milhão de pessoas declarando segui-la em 2022.
Especialistas e praticantes destacam o histórico de marginalização e criminalização das religiões de terreiro como fatores que dificultam a participação política e a visibilidade pública.
Contexto demográfico e representatividade
O material aponta que o número de brasileiros que afirmou seguir uma fé afro-brasileira triplicou entre 2010 e 2022, chegando a 1,8 milhão em 2022, segundo o último censo demográfico do IBGE. Apesar da massa relativamente menor quando comparada aos católicos e evangélicos — que representam cerca de 80% da população —, os profissionais e praticantes destas religiões afirmam que não devem ser ignorados na política. Pesquisadores ressaltam que a afiliação não é apenas uma adesão espiritual, mas também uma forma de organização social e política que nasce nos terreiros, com redes de apoio comunitário, economia, saúde, educação e tecnologia.
Percepções de invisibilidade e preconceito
Advogada e umbandista Lívia dos Santos afirma que é muito difícil para quem segue religiões de matriz africana se ver representado pelos políticos. Ela atribui a dificuldade ao histórico de marginalização e criminalização desses povos ao longo do tempo. Segundo ela, a sociedade ainda não se permite conhecer plenamente essas religiões, o que reforça a invisibilidade nas esferas de poder. Fornece-se a leitura de que a intolerância religiosa é uma barreira para participação democrática e mobilização política.
Organização política e potencial de apoio
O pesquisador Leonardo Vieira, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e integrante do Grupo de Pesquisas sobre Povos de Terreiro, destaca que há uma concepção equivocada de que os povos de terreiro não são capazes de se organizar politicamente. Ele afirma que a política já faz parte da existência dessas comunidades, com estruturas de organização que vão além da prática religiosa e incluem aspectos econômicos, de saúde, educação e tecnologia. Vieira aponta que recém-nomados candidatos que pertencem a matriz afro ou que se aproximam do segmento são, em tese, os mais capazes de obter apoio e votos desses eleitores.
Desafios de mobilização em tempos de campanha
A reportagem aponta que, embora haja potencial de organização, mobilizações religiosas amplas são mais difíceis de articular entre povos de terreiro do que entre outras comunidades religiosas. Os pesquisadores ressaltam que a intolerância religiosa acarreta riscos de violência para quem pratica essas religiões, dificultando apostas em grandes eventos ou agendas públicas associadas a campanhas eleitorais.
Dados de violação de direitos e mecanismos de denúncia
Dados do Disque Direitos Humanos (Disque 100) indicam a gravidade do cenário: entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026 foram registradas 2.774 denúncias de violações de direitos humanos, incluindo intolerância religiosa. O serviço funciona 24 horas e o atendimento é gratuito. As denúncias são registradas e analisadas pela equipe do Disque 100 e encaminhadas aos órgãos competentes. Em situações de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada pelo telefone 190.