Dia da pessoa com deficiência: arte e movimento desafiam capacitismo

Relatos de artistas e profissionais com deficiência mostram as múltiplas dimensões da inclusão e do capacitismo no Brasil, em celebração ao Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência.

Dia da pessoa com deficiência: arte e movimento desafiam capacitismo

“Quando sinto o calor do sol da manhã na pele, me dá vontade de fotografar.” Essa frase abre o relato de Luciano Ambrósio, fotógrafo cego de 57 anos, que transforma a rotina cotidiana em imagens e poesia, revelando percepções de cenários às vezes hostis e outras vezes sob diferentes ângulos.

O material apresenta uma série de histórias que ilustram a diversidade de experiências de pessoas com deficiência no Brasil, incluindo práticas artísticas, atuação profissional, ensino e prática esportiva, em contexto de desafios de capacitismo e de avanços em políticas públicas e reconhecimento institucional.

Luciano Ambrósio: fotografia inclusiva e o sonho de publicar

Luciano Ambrósio, natural de Lajinha (MG) e morador de Ceilândia (DF), perdeu a visão aos 24 anos. Há cerca de 10 anos ele descobriu a fotografia e passou a utilizá-la com o auxílio de um software de voz. Ele mapeia o ambiente pelo corpo, observa texturas do chão, inclinações do terreno e sons ao redor. Com o celular, utiliza informações sobre o que está diante da câmera para a descrição, que a tecnologia transforma em imagens que ele decide registrar.

A prática é vista como extensão de seus braços e sentimentos. O fotógrafo planeja publicar, em novembro, o primeiro livro intitulado Meu olhar, com 120 páginas e edição independente, reunindo imagens e 100 poesias. Em entrevista, ele afirma que “já passei mais tempo da minha vida como um cego do que enxergando”, mas afirma manter em sua memória uma percepção de beleza visual. Sua esposa Edna Teodoro, de 54 anos, descreve o encanto diário de sua criação e relata episódios de capacitismo em que foi questionado se Luciano compreenderia pedidos em estabelecimentos. Ela afirma que o convívio com ele é um aprendizado constante e reforça o desejo de que a arte dele seja reconhecida como sustento e meio de vida.

Juliana Santos: moda, ataques virtuais e busca por reparação

A estilista goiana Juliana Santos, 40 anos, mora em São Paulo e está enfrentando uma onda de ataques na internet. Ela ingressou com ação judicial buscando reparação pelos impactos da exposição. Prints de comentários dirigidos à sua condição de pessoa com deficiência mostram efeitos diretos sobre sua atividade profissional, com cancelamentos e perdas de contratos. Em 2024, segundo a estilista, houve início da perseguição; em 2025, a produção de vestidos caiu de 678 para 68 unidades, com previsão de 127 para 2025 e apenas 28 contratos fechados em 2026, até o momento.

Juliana já produziu mais de 2.300 vestidos ao longo de 12 anos de carreira. Ela aponta que a arte é seu sustento e o sustento de seus filhos e cobra responsabilização pelas ações. Além disso, ela relata que há um inquérito há mais de um ano envolvendo denúncias de calúnia, perseguição e stalking, sem desfecho. A entrevistada planeja apresentar, em 21 de setembro, um vestido como manifesto contra o capacitismo nas redes sociais, com uma intervenção na peça baseada em 200 comentários ofensivos reunidos nos últimos dois anos. Juliana traz à tona um histórico de vida marcado por trauma na infância, incluindo um incêndio que a deixou com amputações e cicatrizes, bem como adoção posterior. Ela afirma que a deficiência é apenas um detalhe, ressaltando que o cérebro, o olhar e a criatividade são determinantes para a sua produção de moda.

Carolina Belfort: educação física inclusiva e convite ao diálogo

Carolina Belfort, professora de educação física do Maranhão, reside no Riacho Fundo (DF) e utiliza a experiência de cadeirante para promover inclusão na escola pública. Ela incentiva que os alunos perguntem tudo, desde o primeiro dia de aula, explicando que perdeu o movimento das pernas na infância após um tiro acidental em casa. Ela observa que, com o tempo, a turma tende a esquecer esse motivo, recebendo abraços e demonstrações de carinho durante as atividades de esportes e dança.

Carolina enfatiza a necessidade de distanciar crianças de telas e orientar que não haja medo de manusear objetos ou participar de atividades. Ela compartilha o desafio de enfrentar capacitismo e o obstáculo adicional de ser mulher, reforçando que precisa provar sua capacidade repetidamente. Seu sonho profissional é atuar de forma especializada com outras pessoas com deficiência, estimulando-as a ver a vida de outra forma.

Daniela Francescutti: natação e identidade surda em competições masters

Daniela Francescutti, 56 anos, funcionária pública e arquivista em Brasília, é atleta surda que participa de competições masters de natação desde 2007. Ela pratica borboleta, medley e provas longas (800 metros e 1,5 mil metros livres) e ficou em sexto lugar na primeira participação na prova mais longa. Em 2013, passou a competir oficialmente na modalidade voltada a surdos, e desde 2021 representa o Distrito Federal em competições nacionais da comunidade surda. Em 2023, participou do Open Panamericano em Guayaquil, no Equador, onde conquistou três medalhas; a delegação brasileira somou 24 medalhas. Daniela destaca que o esporte transformou sua vida, influenciando alimentação, sono e motivação para colaborar com a equipe. Ela descreve a natação como seu “templo de paz” e reforça a prática como espaço de tranquilidade.

Isadora Nascimento: letramento sobre capacitismo e políticas públicas

Isadora Nascimento, secretária nacional dos direitos da pessoa com deficiência, defende a necessidade de um letramento sobre capacitismo no Brasil. Ela explica que termos como “surdo” e “cego” muitas vezes são usados de forma pejorativa, e defende que o tema seja levado para escolas e campanhas sistemáticas. Ela destaca a importância de considerar marcadores sociais na garantia de direitos, afirmando que uma mulher negra com deficiência enfrenta mais camadas de opressão do que uma mulher branca, e que pessoas LGBT com deficiência também enfrentam obstáculos diferenciados. Isadora ressalta a necessidade de melhorar o mapeamento de dados para ampliar políticas públicas de inclusão, promovendo mais direitos e oportunidades para que as pessoas vivam o que desejarem.