Segunda-feira, 14 de setembro. Em 1981, Mara Régia di Perna, aos 30 anos, iria iniciar pela primeira vez a leitura de notícias como âncora de um programa que criara com foco nos direitos sociais das mulheres, o Viva Maria, da Rádio Nacional.
A jornalista relembra a ansiedade do momento: tremedeira, voz rouca e a consciência da responsabilidade que aquilo significava para sua trajetória e para o público.
Ao longo de 45 anos, o Viva Maria tornou-se referência internacional de informação sobre cidadania, gênero e direitos humanos, somando 8,2 mil edições veiculadas e atraindo a atenção de pesquisadores com pelo menos 30 estudos sobre o programa.
O nascimento de um programa voltado às mulheres
Criado na década decisiva para a cidadania feminina no Brasil, o Viva Maria nasceu com o objetivo de discutir mercado de trabalho, direitos sociais, saúde e educação das mulheres, temas que passaram a ganhar repercussão conforme a participação das ouvintes, principalmente por telefone ou cartas.
Impacto sociopolítico e a Constituição
A apresentadora Mara Régia observa que o Viva Maria surgiu num contexto de avanços constitucionais, destacando a promulgação da Constituição. Ela participou da divulgação da Carta das Mulheres aos Constituintes, entregue em 27 de março de 1987 com reivindicações por direitos civis, políticos e sociais. Segundo Mara, toda a articulação do Fórum das Mulheres do Distrito Federal nasceu no auditório da Rádio Nacional com a força do Viva Maria.
A luta contra a violência e a proteção institucional
O programa ampliou seu foco para enfrentar a violência contra a mulher. Mara relata que recebeu ameaças por telefone e passou a ser protegida pela polícia local, organizando a transferência de alguns filhos para familiares fora da capital por um período. A apresentadora descreve que o rádio foi reconhecido como um espaço de cidadania, levando à criação de políticas públicas, como a primeira delegacia especial de atendimento à mulher em Brasília, inaugurada em 1986.
Participação das ouvintes e multiplicação de histórias
As entrevistadas tornaram-se agentes do Viva Maria, multiplicando histórias de mulheres em todo o país. As chamadas, cartas e contatos por e-mail formaram uma rede de participação que abordava demandas por estradas, infraestrutura para escolas, trabalho e cidadania. A jornalista descreve as participantes – as “Marias” – como peças centrais do programa, que gerou uma ampla mobilização entre mulheres de diversas regiões.
Reconhecimento, prêmios e legado
Além do impacto social, o Viva Maria acumula mais de 30 prêmios nacionais e internacionais. Mara Régia define o programa como uma missão de vida, ressaltando a devoção necessária para manter viva a iniciativa, inclusive em ações como campanhas para vítimas de escalpelamento no Amapá. A história de Rosinete Serrão, vítima de escalpelamento, ilustra como o Viva Maria mobilizou redes e resultados práticos, como retorno à escola e formação em pedagogia.
Inspirações regionais e trajetórias individuais
No Acre, por meio das parteiras locais, o Viva Maria ganhou visibilidade e conectou comunidades, fortalecendo a comunicação entre trabalhadores rurais e ouvintes. Kennya Silva, que participou do programa, acabou inspirada a retomar os estudos e concluir uma graduação, demonstrando o efeito multiplicador da atração midiática sobre a educação e a vida de mulheres em diferentes lugares do Brasil.