É em um quintal com coqueiro, goiabeira, bananeiras, uma paineira-rosa e um raro pé de abiu que vivem as 14 famílias do Quilombo Urbano Ferreira Diniz. A comunidade fica na Glória, na zona sul do Rio de Janeiro, e foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O local se tornou ponto de encontro dos amantes da tradicional feijoada da Tia Cida e também representa a resistência comunitária em meio à especulação imobiliária no bairro.
Contexto e tombamento
O Quilombo Ferreira Diniz, localizado na rua Cândido Mendes, foi tombado pelo IPHAN, reconhecendo a importância histórica e cultural da comunidade. O tombamento abrangeu toda a área do terreno, incluindo o quintal, os casarões, referências culturais e espaços de uso comunitário, conforme a decisão oficializada pela instituição.
O que resta do quilombo e sua vida comunitária
O quintal, visto pelo IPHAN como polo gastronômico e cultural, serve à feijoada que financia a manutenção do casarão. Crianças brincam, famílias promovem festas e comunidades religiosas, como Folia de Reis e São Jorge, realizam celebrações e rodas de capoeira. O principal casarão, neoclássico, abriga as moradias das famílias que vivem nos amplos cômodos da antiga hospedagem; o prédio, porém, necessita de reformas para condições de moradia adequadas.
A feijoada da Tia Cida e o papel econômico
Entre as atividades que atraem visitantes, destaca-se a feijoada da Tia Cida, Maria Aparecida Ferreira. Aos sábados, a cozinheira se estabelece entre panelas e serve o prato no quintal, ponto de encontro e polo gastronômico para visitantes. O serviço, que ganhou visibilidade após a pandemia, envolve outros quilombolas que atuam no atendimento. O evento remunera as famílias e mobiliza ações na comunidade.
Reconhecimento histórico e funções do tombamento
O IPHAN descreve o endereço como uma "ilha verde" em meio a prédios altos, resistente à gentrificação. A superintendente do IPHAN no Rio de Janeiro, Patricia Corrêa, aponta que o tombamento cumpre funções jurídicas (restrições de demolição e intervenções incompatíveis com o valor cultural reconhecido), territoriais (consolidação como bem cultural coletivo), simbólicas (reconhecimento público da relevância histórica e social da presença negra) e reparatórias (enfrentamento do apagamento de comunidades negras nas áreas centrais das cidades).
Impactos e próximos passos
Com o tombamento, a expectativa é o reconhecimento da posse coletiva do imóvel pelo Incra. A comunidade já mantém tratativas com o instituto, que acompanha o processo e considera fases iniciais. O grupo pretende, com a escritura em mãos, acessar programas de reforma do casarão e buscar regularização fundiária para proteger contra desapropriações ou venda fracionada do terreno por herdeiros.
A voz da comunidade
Érida Ferreira, presidenta da Associação da Comunidade do Ferreira Diniz, comemora o tombamento e destaca que a medida inclui a comunidade como parte do bem tombado. Ela vê o tombamento como reconhecimento de cultura, patrimônio vivo enraizado na Glória, e afirma que assegurar condições para a permanência da comunidade é garantir um futuro com mais diversidade.
Estudo técnico e participação acadêmica
Para avançar com o reconhecimento pelo Incra, a comunidade precisa passar por etapas, incluindo a elaboração de um estudo técnico pela Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF. A pesquisadora Ana Carmen Amorim Jara Casco coordena o levantamento histórico das famílias e o relato do modo de vida no terreno, com entrega prevista ao Incra até o final de 2026. Casco ressalta que a vida coletiva no quilombo, em que uma criança é cuidada por toda a comunidade, oferece lições sobre a formação do Brasil e o papel das comunidades negras na construção nacional.
Contexto histórico e legado cultural
A história das famílias Ferreira e Diniz remonta à década de 1950, quando a matriarca Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados de Minas Gerais, mudou para o casarão principal ao se casar com Antônio Dias Pessanha, zelador do prédio. O imóvel funcionava como antiga hospedagem. Em 2023, as famílias foram reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares como quilombolas, fortalecendo o vínculo entre a comunidade e a identidade histórica do bairro.