O impacto financeiro por causa dos danos à saúde provocados pelas apostas online no Sistema Único de Saúde (SUS) é de 30,6 bilhões de reais por ano, conforme estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).
A conta considera despesas ligadas a depressão, ansiedade e impactos causados por mortes por suicídio.
O material também destaca aumento expressivo na procura por atendimentos no SUS relacionado à dependência de apostas e jogos de azar nos últimos cinco anos, bem como ações de teleatendimento e plataformas de autoexclusão mobilizadas pelo governo federal.
Contexto financeiro e dados do IEPS
O estudo do IEPS aponta que o custo anual ao SUS está vinculado a tratamentos de depressão, ansiedade e às consequências ligadas a suicídios envolvendo pessoas afetadas por apostas online. Os números refletem um encargo considerável ao sistema público de saúde, com consequências para políticas de prevenção e tratamento de saúde mental.
Aumento da demanda no SUS e ações de teleatendimento
Os últimos cinco anos registraram um crescimento de 140% na procura por serviços no SUS para questões relacionadas à dependência de apostas online e jogos de azar. Em função dessa demanda, o Ministério da Saúde informou que, desde fevereiro deste ano, foi criada uma porta de entrada eletrônica para atendimentos a problemas ligados a jogos e apostas, o que gerou cerca de 20 mil cadastros após a realização de testes.
Diante desse fluxo, a capacidade de teleatendimento aumentou de 600 para até 100 mil atendimentos mensais, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).
Autoexclusão e bloqueio de CPFs
O crescimento do problema também se reflete na plataforma de autoexclusão lançada pelo Ministério da Fazenda. Mais de 5 milhões de CPFs foram bloqueados em sites de apostas online autorizados pelo governo federal. Além disso, mais de 1 milhão de usuários recorreram à autoexclusão: quase metade desses relatos indicou problemas de saúde mental relacionados a apostas, segundo o material disponível.
Casos de autoexclusão e depoimentos
O material traz depoimentos de jovens e trabalhadores que buscaram a plataforma de autoexclusão para evitar recaídas e retomar o controle. Um vendedor de 24 anos, morador de Lages (SC), descreve que, após seis anos de prática, perdeu cerca de meio milhão de reais, e atribui à ferramenta de autoexclusão um papel fundamental na retomada da vida. Ele relata que passou a vender café para recomeçar, mantendo acompanhamento contínuo para evitar recaídas.
Outros relatos destacam o papel do apoio familiar e de grupos de help, como a irmandade Jogadores Anônimos (com rede de suporte para familiares, chamada JOG-Anon), além de campanhas de conscientização sobre a doença e a necessidade de tratamento.
Abordagens de tratamento e redes de apoio
Especialistas ressaltam a importância da intervenção precoce e da busca por ajuda qualificada sem morais. A psicóloga Mariana Kehl enfatiza que a família deve agir ao perceber sinais de dependência, como isolamento, alterações de humor e gastos elevados, sem esperar que o problema se agrave. O psiquiatra Hewdy Lobo aponta a permissividade familiar no controle de tempo de jogo de crianças e adolescentes como fator que pode facilitar o vício.
Advogada Luana Mendes, conhecida como Dra. Gamer, afirma que não é o tempo de jogo, mas o comportamento que determina a dependência, sugerindo intervenção quando há prejuízos à saúde, à educação ou à vida social. Os entrevistados concordam que, em alguns casos, o tratamento pode exigir medicamentos complementares a psicoterapia ou psiquiatria.
O SUS oferece teleatendimento psicológico pelo portal Meu SUS Digital, bem como atendimento presencial em UBSs e nos centros de Atenção Psicossocial (CAPs). Também há suporte para familiares. Além disso, grupos de apoio presenciais ou online, como Jogadores Anônimos, e serviços de proteção emocional, como o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo 188, são opções de auxílio.