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Apostas em bets avançam entre jovens e ampliam risco de dependência

Estudo e relatos de usuários apontam crescimento de dependência entre adolescentes e jovens adultos, com impactos financeiros, psicológicos e educacionais

Apostas em bets avançam entre jovens e ampliam risco de dependência

Cada vez mais jovens têm buscado ajuda para largar a dependência de bets, segundo Luiz Carlos*, integrante da irmandade Jogadores Anônimos, grupo de apoio a pessoas com problemas de jogo.

É comum encontrar adolescentes na faixa de 14 anos procurando ajuda para conter o vício, com relatos de jovens de 15, 16, 19, 20 e até 35 anos buscando assistência.

Contexto e relatos de quem busca ajuda

Luiz Carlos, 71 anos, relembra a mudança de cenário desde a década de 1980, quando não havia celular e o vício acontecia com máquinas de videopôquer; hoje, ele afirma, há um cassino no bolso. Na irmandade Jogadores Anônimos, a dependência se manifesta tanto entre quem aposta presencialmente quanto online, com casos de Rogério (53), Rodrigo (47) e Carla Xavier (41) que já frequentam o grupo. Alguns membros estão há mais de um ano sem apostar, enquanto outros estão há meses sem recorrer ao vício, graças ao suporte da irmandade. Carla descreve o perfil de atendimento, com frequência de pessoas que já perderam tudo e que chegam ao grupo desacreditadas da vida, inclusive com riscos de suicídio.

Casos e impactos financeiros

O jovem Gustavo Pereira, 24 anos, é citado como exemplo de gravidade: começou a apostar aos 18, perdeu meio milhão de reais em seis anos e hoje está há cerca de dois meses sem apostar. Ele relata transformar ganhos ocasionais em montantes maiores na plataforma de apostas, e a percepção de que o vício distorce a noção de dinheiro. Gustavo trabalha vendendo café nas ruas de Lages (SC) para recomeçar, mantendo perfil no Instagram para compartilhar a experiência de superação e incentivar outras pessoas a evitar recaídas.

Percepção de especialistas sobre vulnerabilidade dos jovens

Especialistas citados destacam a facilidade de acesso às plataformas pelo celular como fator que aumenta a exposição de jovens às bets. Dados do Unicef, de 2021, apontam que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar online até os 11 anos e 78% começam após os 12 anos. Pesquisas brasileiras de 2024–2025 mostram que 9,5% dos entrevistados de ensino fundamental e médio fizeram a primeira aposta aos 11 anos, e quase metade dos estudantes do 3º ano do ensino médio já apostou. A psicóloga Mariana Kehl ressalta que o cérebro juvenil está em construção, com áreas de prazer e dopamina amadurecendo mais rápido que as regiões de controle de impulsos, o que aumenta a vulnerabilidade a estímulos de apostas.

Endividamento, educação e consequências sociais

Relatório do IBICT aponta que, em 2024, pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram bets, sendo que quase metade ficou endividada. Rogério, frequentador da irmandade, descreve como as apostas comprometeram orçamento, contas e renda. Tiago Braga, diretor do IBICT, afirma que apostas online são gastos, não investimentos, e o descontrole eleva o risco de problemas cotidianos como aluguel, alimentação e educação, além de risco de ideação suicida associada ao endividamento por jogo.

Impacto no ensino superior e responsabilidades institucionais

A ABMES aponta que 34% dos entrevistados afirmaram que precisariam parar de gastar com apostas para iniciar uma graduação em 2026. Entre quem já está no ensino superior, 14% relataram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso por causa dos gastos com bets. Paulo Chanan, diretor-geral da ABMES, afirma que o problema exige atuação conjunta entre educação, saúde, regulação e políticas públicas, e que as instituições devem oferecer informação, prevenção, orientação, acolhimento e encaminhamento. A ABMES ressalta que o estudo não avaliou desempenho acadêmico nem saúde mental.

Regulação digital e proteção de menores

O material aborda o ECA Digital (Lei Felca), sancionado em 2025 e em vigor desde março de 2026, com regras para plataformas, jogos e redes sociais. Felipe Moreira destaca que a lei cria responsabilidade compartilhada entre plataformas, famílias e Estado, incluindo mecanismos confiáveis de aferição de idade e restrições a menores de 18 anos para apostas online, além da proibição de loot boxes. Luana Mendes enfatiza que controle parental exige educação digital e orientação para que crianças aprendam a identificar situações perigosas e denunciar abusos. O ECA Digital amplia a responsabilidade das instituições de ensino em cidadania digital e pode responsabilizá-las em casos de omissão diante de cyberbullying. Influenciadores mirins não podem fazer publicidade velada. Mariana Kehl avalia que a publicidade por influencers representa risco para crianças e jovens, pois funciona como recomendação de figuras de confiança, afetando a percepção de consumo.

Perspectivas sobre implementação regulatória

Tiago Braga reforça estudo do IBICT sobre uso de redes sociais para estimular apostas entre jovens, enquanto Felipe Moreira aponta que a legislação é suficiente, mas requer regulamentação e fiscalização efetivas pelo Poder Público e pelas empresas do setor. O material cita que o ECA Digital cria diretrizes para reduzir danos, envolvendo educação, regulação e políticas públicas como elementos necessários para enfrentar o problema.