Uma máquina silenciosa trabalha constantemente para que milhões de pessoas na América do Sul tenham acesso a água, rios e plantações. Esse mecanismo se chama Amazônia e funciona da seguinte maneira: a umidade vinda do oceano produz chuva sobre a floresta; essa água é absorvida do solo pelas árvores, e lançada de volta na atmosfera em forma de vapor; o vento, então, espalha, esse vapor por todo o continente, fazendo chover em diversas regiões.
De acordo com a pesquisadora Julia Valentim Tavares essa é a principal infraestrutura hídrica da América do Sul e a maior "máquina de chuva" do planeta. Uma árvore adulta na Amazônia pode liberar para a atmosfera de 200 a 300 litros de água todos os dias.
O conceito de uma “máquina de chuva” e a importância da Amazônia
Pesquisadoras destacam que a Amazônia sustenta ciclos de água, nutrientes e carbono em várias escalas — local, regional e global. No discurso apresentado, a ideia é ilustrar a Amazônia como uma rede de evapotranspiração que alimenta chuvas não apenas na floresta, mas em áreas vizinhas. As cientistas mencionam ordens de grandeza para a circulação de vapor: cerca de 400 bilhões de árvores, trabalhando diariamente, poderiam movimentar a umidade necessária para formar rios voadores, termos usados para descrever o transporte de vapor de água por grandes distâncias.
Impactos observados e evidências de mudanças climáticas
As pesquisadoras trazem relatos de que o desmatamento brasileiro na Amazônia já resulta em menos chuva em regiões do Brasil e da Bolívia, com temperaturas aumentando em áreas desmatadas e secas mais intensas e duradouras. O arco do desmatamento, estudo dentro das bordas da Amazônia, aponta queda de chuvas e elevação de temperatura ao longo da última década. O aquecimento global se soma à variabilidade climática, incluindo o El Niño, que em 2024 provocou a pior seca já registrada na região, com efeitos que alcançaram capitais vizinhas como Bogotá (falta de água) e Quito (cortes de energia elétrica).
A situação atual e os alertas de risco
Durante o TEDXAmazônia, as especialistas destacaram que a devastação da Amazônia já está afetando a conectividade hídrica, elemento central para a conservação do bioma. A copresidente Marielos Peñaclaros ressaltou que a floresta é um mosaico interconectado de ecossistemas, sustentando comunidades que dependem de seus recursos. A previsão de um novo El Niño ainda mais intenso reforça as preocupações de que, com seca severa, a floresta pode sofrer mortalidade hidráulica, reduzir o crescimento vegetal e aumentar as emissões de carbono, invertendo o papel da Amazônia como sumidouro.
Caminhos propostos e próximos passos
As pesquisadoras apontam que a solução passa pela redução drástica das emissões de gases de efeito estufa, sobretudo pela substituição de combustíveis fósseis por energia menos poluente. Além disso, enfatizam a necessidade de investir na conectividade ecológica, restaurar áreas degradadas e reconectar ecossistemas, de modo a manter a função hidrológica da Amazônia. A ideia é prevenir que a região atinja um ponto de não retorno, cuja perda de conectividade seria catastrófica para o planeta.