Escudo das Américas usa cartéis para barrar China, dizem especialistas

Especialistas em relações internacionais veem a coalizão liderada pelos EUA como instrumento de influência política e econômica na região, com foco em combate ao narcotráfico para legitimar ingerências.

Escudo das Américas usa cartéis para barrar China, dizem especialistas

A coalizão Escudo das Américas, liderada pelos Estados Unidos e integrada por 14 países latino-americanos, é entendida por especialistas como um mecanismo para interferir na região com o objetivo de conter a influência econômica da China. O grupo, criado em março deste ano, divulgou, nesta semana, um documento durante a 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, anunciando a intenção de levar a proposta para a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Entre as medidas propostas, está a classificação de 24 organizações narcotraficantes como terroristas, incluindo grupos brasileiros como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). Os especialistas destacam que a coalizão pode usar o narcotráfico como justificativa para legitimar ingerências na América Latina e, indiretamente, sinalizar para a China que suas relações com a região precisam ser revistas sob a ótica da política externa norte-americana.

Contexto e composição da coalizão

A iniciativa Escudo das Américas foi criada em março deste ano e é formada, atualmente, por EUA, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago. No atual ciclo, os países declaram a intenção de levar a proposta para a OEA para atuação conjunta no combate ao narcotráfico e à narrativa de ameaças externas.

Presença da China e objetivos declarados

Os especialistas destacam que o foco principal do Escudo das Américas, na visão de seus defensores, é a possibilidade de usar o combate ao narcotráfico para legitimar ingerência na região. Esse movimento é visto como uma forma de pressionar governos a alinharem suas políticas externas com os interesses dos EUA, em especial no que tange às relações com a China. O documento conjunto também enfatiza cooperação econômica, com ênfase na proteção de cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis, tema central na disputa entre Washington e Pequim.

Caráter internacional e potencial de legitimidade

Especialistas citados pela Agência Brasil listam que a intenção de levar o tema à OEA pode servir para pressionar países que ainda não aderiram à proposta, como Brasil, México, Uruguai e Canadá. O uso da Organização para criar legitimidade institucional é visto como uma estratégia para consolidar a posição norte-americana na região. O TIAR (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca), assinado em 1947, é citado no documento como base para uma eventual ação conjunta entre os Estados americanos, caso haja agressão a qualquer membro.

Reação e posição do Brasil

O governo brasileiro não foi convocado para participar da iniciativa até o momento. A postura do Brasil, segundo analistas ouvidos, é de cautela, mantendo cooperação internacional no combate ao crime organizado com os parceiros da região. O Planalto avalia que a proposta pode permitir alinhamentos automáticos no campo econômico e, possivelmente, impor restrições à presença da China na região, dependendo de como for apresentada e discutida na OEA. O Brasil aguarda a apresentação formal da proposta para decidir se apoia ou rejeita uma eventual resolução do organismo.

Outros pontos do documento e críticas

Além do combate ao narcotráfico, o documento cita medidas de cooperação econômica e a proteção de cadeias de suprimento de minerais críticos. Um ponto crítico destacado pelos especialistas é a potencial possibilidade de impor a venda de equipamentos militares dos EUA, o que, segundo eles, reduziria a autonomia dos países para escolher seus parceiros de defesa. Também há críticas à falta de clareza sobre o uso efetivo de tropas na região e à possibilidade de o Escudo servir de veículo para interesses estratégicos dos EUA sob a justificativa de combate ao crime organizado.